"O lar cristão é o lugar onde os filhos recebem o primeiro anúncio da fé. É por isso que a casa de família se chama, com razão, «Igreja doméstica», comunidade de graça e de oração, escola de virtudes humanas e de caridade cristã."(Catecismo da Igreja Católica, 1666)

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Solenidade do Sagrado Coração de Jesus


Para refletirmos sobre a importância da Solenidade de hoje e a relacionarmos com a outra, também importante, de Cristo Rei, transcrevo trechos de meu novo livro, a ser lançado ainda este ano:
“O dever de prestar a Deus um culto autêntico diz respeito ao homem individual e socialmente. (...) O dever social dos cristãos (...) [e]xige que levem a conhecer o culto da única religião verdadeira, que subsiste na Igreja católica e apostólica. Os cristãos são chamados a ser luz do mundo. Assim, a Igreja manifesta a realeza de Cristo sobre toda a criação e particularmente sobre as sociedades humanas.” (Catecismo da Igreja Católica, 2105)

Desde o Renascimento e a Reforma Protestante, foi-se projetando, na Europa católica, sua progressiva descristianização. Com efeito, o período imediatamente posterior à Idade Média caracterizou-se por uma crise sem precedentes, desembocando, pela ação dos novos filósofos dos séculos XVII e XVIII, no laicismo inaugurado pela Revolução Francesa, em 1789. Nesta, institucionalizou-se o já crescente distanciamento entre as esferas temporal e espiritual. Expulsou-se, na prática e na teoria, Cristo de Seu legítimo Reinado sobre as sociedades civis. Tolerar-se-ia, no máximo, o culto na dimensão privada, no foro íntimo das consciências, o que contraria a perene doutrina católica, exposta na citação acima, por exemplo.

Sempre foi entendimento da Igreja que Nosso Senhor, ao dar a primazia ao espírito e fundar um Reino sobretudo transcendente, não abdicou de Sua soberania sobre o campo temporal, i.e., não-religioso. Tanto isto porque os cristãos, cidadãos do céu, vivem como súditos na terra – e não se pode servir a dois senhores –, e também pelo fato de que, guardando-se a natural independência entre Estado e Igreja em suas esferas próprias d ação, o bem terreno subordina-se indiretamente ao celeste. Outrossim, a salvação conquistada por Jesus, plenamente gozada na vida porvir, inicia-se aqui no “exílio da terra” – para usarmos uma linguagem mais teresiana.

Pelo liberalismo do século XIX, desenvolvimento político e filosófico do Illuminismo e da Renascença, o erro laicista, anticlerical, contrário ao justo domínio de Cristo também na esfera civil – por meio do Estado, claro, e não em uma confusão teocrática de sabor islâmico –, foi reafirmado. Precisou a Igreja lembrar a todos sua doutrina tradicional.

Para tanto, na esteira de tantos Papas, notadamente o Beato Pio IX, Leão XIII e São Pio X, que combateram sem cessar o inimigo da ordem social cristã e sacral, qual seja o liberalismo – e o Estado Moderno, a filosofia iluminista, a concepção juspositivista do Direito, as distorções do que sejam a razão e a liberdade etc –, o Santo Padre, Pio XI, instituiu em 1925, pela Encíclica Quas Primas, a festa de Cristo Rei.

Com o pomposo título oficial de Festa – hoje Solenidade – de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, a data, na época a ser observada por ocasião do último Domingo de outubro – hoje XXXIV Domingo do Tempo Comum –, era uma proclamação do que sempre a Igreja sustentara, e uma convocação aos cristãos para que, pela oração, pela liturgia própria do dia, pela consagração a Cristo Rei, e pela ação apostólica contrária ao laicismo, ao liberalismo e à secularização, se empenhassem na restauração do Reinado do Salvador sobre os Estados e as sociedades. Além de Rei das almas e da Igreja, Cristo também o era da esfera temporal: Seu Reino era o universo!

Em nossos tempos, os frutos do laicismo nós os vemos abundantes: relativização da moral; indiferença religiosa; falsificação do conceito de liberdade; diminuição dos fiéis católicos; ridicularização de símbolos sagrados; legislações incompatíveis com a Lei de Deus, as quais permitem o aborto, a eutanásia, o divórcio, o “casamento” homossexual, a eliminação dos embriões humanos, o cerceamento da propriedade privada, a violação dos direitos humanos fundamentais etc. Quando Cristo foi destronado de Seu Reino sobre o campo civil e as Nações passaram a governar-se sem referência a Deus, a reação dos cristãos deveria ser mais forte. “Foi instituída esta festa para combater o indiferentismo e o laicismo e para excitar os cristãos a renovar sua homenagem de submissão a Jesus Rei, a reparar os ultrajes que recebe da parte dos súditos rebeldes e a promover os interêsses de seu reino, trabalhando para que a realeza de Jesus seja reconhecida efetivamente pelos indivíduos, pelas famílias e pelas nações.” (Missal. Para Domingos e Festas, São Paulo: FTD, 1952, p. 528)

Relacionou o Papa a devoção a Cristo Rei ao culto de Seu Sagrado Coração. De fato, a espiritualidade do Reinado e Cristo, tão presente na mente da Igreja em todos os tempos, muito se identifica com as revelações a Santa Margarida Maria de Alacoque.

“O culto o Sacratíssimo Coração de Jesus tem suas bases firmíssimas nas Sagradas Escrituras. Os Santos Padres o revelaram profusamente, sobretudo com o fato histórico da lança do soldado ao peito de Cristo. No Medievo, a meditação sobre esta passagem bíblica relembrada na liturgia levou a aprofundar-se muito a devoção ao Coração de Jesus Cristo, principalmente no mosteiro beneditino de Helfta (Alemanha), de modo especial com Santa Matilde e Santa Gertrudes.

No século XVIII muito divulgou seu culto São João Eudes, que compôs um texto litúrgico para sua festa. Nesse mesmo século as revelações a Santa Margarida Maria de Alacoque levaram-na a que propugnasse sua aprovação por Roma como festa litúrgica para toda a Cristandade. Esta difusão deu-se, sobremaneira, pela mediação dos Bispos poloneses, nos tempos de Clemente XIII, em 1765. O culto difundiu-se por vários lugares e em 1856 Pio IX estendeu a festa a toda a Igreja Universal. Leão XIII consagrou o mundo ao Coração de Jesus em 11 de junho de 1899. Pio XI elevou a festa ao grau de primeira classe com oitava privilegiada, em 1928. Depois do Concílio Vaticano II, com a renovação do Calendário Litúrgico, tal festa tem o caráter de Solenidade.” (BONAÑO, D. Manuel Garrido, OSB. Año Litúrgico Patrístico, vol 3 – Pascua, Pamplona: Fundación Gratis Date, 2002, p. 84)

“A devoção e culto ao Sagrado Coração de Jesus, ainda que tenha precedentes muito antigos, encontra sua forma plena por ocasião das revelações privadas recebias por Santa Margarida Maria de Alacoque (1647-1690), religiosa da Visitação. Esta espiritualidade foi abençoada com freqüência pelos Papas com o maior apreço, como síntese perfeita de toda a espiritualidade cristã.

Em 1856, o Papa Pio IX instaura para toda a Igreja a festa litúrgica do Sagrado Coração. Leão XIII consagra o gênero humano ao Coração de Jesus, e prepara o ato em sua Encíclica Annum Sacrum (1899). No Magistério Apostólico sobre este tema convém recordar especialmente Pio XI, nas Encíclicas Miserentissimus Redemptor (1928) e Caritate Christi Compulsi (1932); Pio XII, nas Encíclicas Summi Pontificatus (1939) e Haurietis Aquas (1956); Paulo VI, em sua Carta Apostólica Investigabiles Divitias (1965); e João Paulo II, na mensagem por ocasião do centenário da consagração do gênero humano ao Sagrado Coração de Jesus (1999).

A devoção ao Coração de Jesus é uma escola perfeita de vida espiritual cristã, e por isso mesmo sintetiza harmoniosamente todos os valores da vida em Cristo – Amor divino, Trindade, Cruz, Eucaristia, espírito reparador de expiação, atitude sacerdotal e sacrifical, amor à Igreja etc. Aqui (...) fixar-me-ei sobretudo no valor desta devoção como eficacíssima reação orante dos cristãos e da Igreja diante dos males do mundo atual” (IRABURU, Pe. José María. Oraciones de la Iglesia en Tiempos de Aflicción, Pamplona: Fundación Gratis Date, 2001, pp. 56-57), qual sejam o relativismo, a imoralidade, o desrespeito pela Lei de Deus, a recusa da ordem temporal em submeter-se a Cristo Rei.

Quando o Papa Pio XI instituiu a festa alusiva ao Reinado de Nosso Senhor, em 1925, não fez mais do que aplicar à já tradicional devoção do Sagrado Coração de Jesus as características próprias da Sua realeza. Enfatizou a Quas Primas o aspecto do Reinado do Coração de Cristo. Para o Papa, reconhecer Cristo como Rei é sinônimo de obedecê-Lo livre e amorosamente, pela consagração total a Seu Coração Sagrado. Notável é constatar que a imagem de Cristo Rei seja exatamente a mesma que representa o Sagrado Coração de Jesus, desta feita com trono, capa real, cetro e coroa. No dia de Cristo Rei, outrossim, recomenda a Igreja a prática de renovar a consagração do gênero humano ao Coração de Jesus, o que é enriquecido com indulgência plenária. As duas devoções, percebe-se, estão intimamente ligadas.

Falando dos séculos XIX e XX, Pio XI fortalece essa ligação entre o culto a Nosso Senhor sob as invocações de Cristo Rei e de Seu Sagrado Coração, de modo que podemos concluir ser a pretensão papal o restabelecimento na esfera civil, do Reinado do Sagrado Coração de Jesus Cristo. “Como no século precedente e no nosso, pelas maquinações dos ímpios, chegou-se a depreciar o império de Cristo, Nosso Senhor, e a declarar publicamente a guerra à Igreja, com leis e moções populares contrárias ao Direito divino e à lei natural, e até houve assembléias que gritavam: ‘não queremos que reine sobre nós’ (Lc 19,14). Por causa desta consagração [ao Coração de Cristo] a que aludíamos [realizada em 1899 por Leão XIII], a voz de todos os amantes do Coração de Jesus irrompia unânime, opondo-se com toda a força, para reivindicar sua glória e assegurar seus direitos: ‘é necessário que Cristo reine (1 Co 15,25); venha a nós o vosso Reino.’” (Papa Pio XI. Encíclica Miserentissimus Redemptor, de 8 de maio de 1928, 4)Dizer Cristo Rei equivale a rogar: “Sagrado Coração de Jesus, venha a nós o Vosso Reino”, como reza uma tradicional jaculatória.

O sacerdote espanhol Pe. José María Iraburu resume esse profundíssimo nexo entre a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e a consciência do Reinado de Cristo não só sobre as almas, mas sobre a esfera temporal. O liberalismo dos séculos XVII, XVIII e XIX, o laicismo, a radical separação entre Igreja e Estado – “legitimando-se” que o último desobedeça a Lei de Deus e instaure um pernicioso “direito ao erro” –, e mesmo a escandalosa cooperação de alguns católicos a setores maçônicos e liberais, são os alvos a ser combatidos pela devoção ao Coração de Cristo e pela luta a favor de Cristo Rei. “A devoção ao Coração de Jesus, a partir sobretudo do século XIX, difundiu-se entre o povo cristão precisamente quando os ‘católicos liberais’ entram e clara cumplicidade cm o mundo. E assim, tal espiritualidade ajuda os fiéis a serem muito conscientes do pecado do mundo; a viverem livres do mundo, e conseqüentemente do diabo e de seus enganos; e a serem capazes, portanto, de atuar sobre o mundo para melhorá-lo, curá-lo e elevá-lo, consagrando-o a Cristo Rei. Neste sentido, mostrou-se nos últimos séculos como a espiritualidade mais forte e mais profundamente popular, a mais capaz, se for o caso, de guardar fidelidade até o martírio – pensemos no México, na Espanha ou na Polônia. Daí, talvez, precisamente, a especial aversão que a ela sentem os cristãos amigos do mundo, e o empenho que fazem e falsificá-la e desprestigiá-la.” (IRABURU, Pe. José María. De Cristo o del Mundo, Pamplona: Fundación Gratis Date, 1997, p. 121)

Eis, sucintamente, os motivos pelos quais Sua Santidade, o Papa Pio XI, instituiu a festa de Cristo Rei: realçar a soberania do Coração de Jesus sobre o mundo com uma data distinta daquela que a Seu culto está destinada; combater o liberalismo, o laicismo, o Estado Moderno, pela oração, por uma Missa própria, e por uma espiritualidade visivelmente militante e belicosa; e reafirmar o Reinado de Cristo nas almas e na esfera temporal, conforme sempre ensinaram os Papas – sobretudo a partir da crise da Cristandade e da secularização que a ela se seguiu.

“Infelizmente permanecem ainda, inclusive nas sociedades democráticas, expressões de laicismo intolerante, que hostilizam qualquer forma de relevância política e cultural da fé, procurando desqualificar o empenho social e político dos cristãos, porque se reconhecem nas verdades ensinadas pela Igreja e obedecem ao dever moral de ser coerentes com a própria consciência; chega-se também e mais radicalmente a negar a própria ética natural. Esta negação, que prospecta uma condição de anarquia moral cuja conseqüência é a prepotência do mais forte sobre o mais fraco, não pode ser acolhida por nenhuma forma legítima de pluralismo, porque mina as próprias bases da convivência humana.” (Pontifício Conselho Justiça e Paz. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 572)

É dever da família, Igreja doméstica, contribuir para a vitória do Coração de Cristo no mundo, para que Ele reine sobre a sociedade!

E o fazemos isso, de modo bem prático, tendo a devoção das nove primeiras sextas-feiras, fazendo a Consagração Pessoal, o Ato de Consagração das Famílias, o Ato de Reparação, e a Ladainha do Sagrado Coração de Jesus, confiando nas doze promessas a Santa Margarida Maria Alacoque, e lendo bons livros sobre o tema.

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