Noite semanal de oração em família

Em família, rezamos juntos várias vezes todos os dias. Por vezes, algumas famílias rezam juntas pela manhã, ou então à noite, ou o terço é recitado por todos. 

Aqui em casa, a oração da manhã, a oração da noite e a leitura do Evangelho do dia são feitas individualmente, como um momento em que as almas de cada um dos membros da família buscam a Deus de acordo com sua própria realidade. Em algumas ocasiões, propomos um ao outro, a Aline e eu, rezar a oração da manhã e a da noite em casal e tem sido uma experiência enriquecedora de comunhão espiritual entre nós.

Por óbvio, a meditação é igualmente pessoal, ainda que, em retiros, ela possa ser dirigida. O Angelus - ou, no Tempo Pascal, o Regina Coeli - é rezado individualmente ou em casal ou família, dependendo das circunstâncias. 

Recito sozinho o breviário - a Aline não o segue, mas algumas vezes, em festas importantes, reza Vésperas comigo de modo mais solene. 

Já o terço gostamos de fazer juntos.

Há uma vida espiritual de cada membro da família, e há uma vida espiritual da família. Esta não é a simples soma da vida espiritual de cada um, mas adquire contornos bem característicos quando temos consciência de que somos um só em Cristo, especialmente o casal, que se torna, pelo Matrimônio, uma só carne. 

Assim, ao lado das devoções e orações pessoais, há momentos muito próprios para oração em comum e necessariamente em comum. O terço, para nós, é uma delas. Ir à Missa juntos também. Quando não tínhamos filhos, fazíamos hora eucarística em casal todas as quintas. Pretendemos voltar a fazer, agora em família, quando as crianças estiverem um pouquinho mais crescidas.



Existe, todavia, uma possibilidade bem singela de crescer em comunhão espiritual com a esposa e os filhos, além dessas citadas, e que se pode tornar uma verdadeira tradição familiar: a noite semanal de oração em família.

Combina-se um dia específico da semana, na qual todos estarão presentes. Claro, embora bebês de colo possam estar, ainda que nada entendam do que está acontecendo, crianças em determinada faixa etária, se, por seu temperamento, acabarem "atrapalhando" a reunião e elas não se sentirem magoadas por serem excluídas, podem estar ausentes. Tudo é combinado e conversado, para evitar ressentimentos.

A reunião é simples. Trata-se de rezar, meditar algum tema proposto pela Igreja ou pelo diretor espiritual ou mesmo pelos pais, interceder pelas necessidades da família - pais e filhos podem colocar seus pedidos e intenções -, agradecer a Deus pelas bênçãos concedidas na semana que passou, ler o Evangelho de Domingo passado ou do Domingo seguinte, cantar algum hino ou cântico espiritual, e repassar um ou outro ponto de doutrina.

Como somos membros do Regnum Christi, temos um "roteiro" para esse tipo de reunião, que fazemos geralmente em equipe nas nossas seções onde o Movimento atua. Chamamos de "Encontro com Cristo", e dele participam os membros da equipe específica que se reúne, semanalmente, para ele.


O Encontro com Cristo é uma atividade em equipe, na qual os membros descobrem sob a inspiração do Espírito Santo os critérios evangélicos que hão de iluminar e guiar toda a sua vida. O fim dessa atividade é ajudar os membros do Movimento a caminhar cada dia mais intensamente ao encontro de Cristo, seja pela aplicação da leitura e meditação do Evangelho, seja pela análise da fidelidade pessoal ao compromisso espiritual e apostólico, seja pela revisão, à luz do Evangelho, de fatos de vida dos homens a quem estão chamados a evangelizar. É muito importante que a reunião não ultrapasse uma hora e quinze minutos, e que o secretário da equipe anote, em livro próprio, todos os pontos do EC, como uma ata (com os nomes dos presentes, a citação do Evangelho lido na reflexão, o grau de cumprimento dos compromissos espirituais, o debate nos fatos de vida, e a revisão do compromisso apostólico).

Transportamos, como fazem vários casais do Movimento, a metodologia do Encontro com Cristo para nossa casa, e essa reunião semanal de oração, à noite, é feita nos mesmos moldes daquele. Temos a oração inicial (no nosso caso, o Vinde Espírito Santo, a Ave Maria, o Glória e as jaculatórias próprias). Com a oração inicial, nos dispomos a abrir o nosso coração para que seja o Espírito Santo, pela intercessão da Santíssima Virgem, sua Esposa, quem nos faça conhecer e mostrar a vontade e o caminho a seguir, ao serviço da Igreja e para a santificação de nossas almas.

Depois lemos o Evangelho do Domingo seguinte, ficamos uns instantes em silêncio e em seguida cada um pode expor, com suas palavras, as luzes que tirou da passagem evangélica, ou tirar dúvidas, falar o que mais lhe chama a atenção, fazer considerações. Cada um vai expondo de maneira espontânea as luzes que tenham recebido da leitura do Evangelho. Cada um deve abrir-se ás contribuições dos outros, e vendo as inspirações que Deus esteja colocando no fundo da alma dos partipantes.

Após, revisamos nossos compromissos espirituais. Se os membros não são todos do Regnum Christi ou se já fazem essa revisão dos compromissos no Encontro com Cristo de sua equipe, pode-se dispensar essa parte ou trocar por uma revisão de outros tipos de comprometimentos espirituais da família (como, por exemplo, tomar a limpo a vida espiritual dos filhos). Como, em Santa Vitória, não temos seção do Movimento organizada, aproveitamos essa parte para fazer o que faríamos se equipes tivéssemos e revisamos os compromissos assumidos quando da nossa incorporação ao Regnum Christi: determinadas orações prescritas e outros atos. Encerramos essa parte com uma oração. Um dos participantes fez uma oração espontânea, sentados mesmo, para agradecer a Deus por estarem reunidos em equipe e pelos êxitos alcançados, para pedir perdão pelas falhas no cumprimento dos compromissos espirituais, e para pedir forcas para a semana seguinte.

Enfim, debatemos sobre um fato relevante da semana. É o que chamamos de "fatos de vida". Trata-se de expor de maneira muito breve algum fato positivo ou negativo acontecido desde o último EC (ou, se for importante, nos últimos 15 dias). Estes fetos de vida, porém, nos ensinam a olhar com profundidade os acontecimentos do mundo e dos homens, nos quais se fazem presentes as forças do bem e do mal. Cada um pode enunciar um fato, se possível dando um título a ele, e explicando brevemente o que aconteceu. Rapidamente, os familiares votam sobre um dos fatos expostos, e o fato eleito é ampliado de maneira mais desenvolvida pela pessoa que o colocou. Deve ser um fato que, pelo seu conteúdo, sirva para um debate e para melhor tirar lições práticas para a vida e para o apostolado. Ampliado o fato pelo que o anunciou, os membros podem ajudar na análise segundo o método ver, julgar e agir:

1. Ver
a) fatos paralelos: casos semelhantes que ajudem a enriquecer o acontecimento escolhido.
b) causas que possivelmente deram origem ao fato.
c) conseqüências que este fato teve ou tem sobre a sociedade, a Igreja e a vida particular das pessoas.

2. Julgar
a) juízos humanos: buscar virtudes ou valores humanos que ajudem a compreender o fato; citar possíveis contra-valores.
b) juízos evangélicos: buscar frases do Evangelho que ajudem a compreender o fato.

3. Agir
a) cada membro deve fazer um compromisso, à luz do fato discutido.
b) o membro que anunciou o fato sugere um agir em equipe, que também tenha relação com o fato.

Ao fim da reunião, se revisa o compromisso apostólico da família: uma peregrinação que se resolveu fazer, a catequese dos filhos, uma missão na paróquia, algum filme com conteúdo formativo que se vai eleger para ver no fim de semana. Isso dá à família um sentido de missão. Dedicam-se os membros a traçar um novo compromisso apostólico, ou novas tarefas específicas para o cumprimento do mesmo compromisso, o qual, aliás, pode ser mantido, dependendo da conveniência ou de ser a curto, médio ou longo prazo. O compromisso deve envolver todos os integrantes, ainda que, por vezes, seja dividido em tarefas específicas. Por isso é um compromisso em família. Este compromisso deve adaptar-se à natureza e às circunstâncias próprias dos membros. Deve ser um compromisso concreto pelo Reino de Cristo, como fruto e conseqüência do encontro com Ele.

Termina-se o EC com uma oração final para agradecer a Deus por estarmos reunidos na sua presença. Aproveita-se também para dar sugestões e para programar a próxima reunião.



É claro que essa é uma rotina muito própria nossa, que somos do Regnum Christi. Os leitores poderão adaptar as sugestões acima, ou mesmo simplesmente pegar a idéia de uma noite semanal de oração em família e criar sua própria estrutura ou, então, se forem de algum movimento, usar suas diretrizes.

O importante é fazer essa reunião e cultivar a fidelidade à mesma como um momento importante para o crescimento espiritual de todos os membros da Igreja doméstica. É uma oportunidade singular para os pais tirarem dúvidas doutrinárias e espirituais de seus filhos, partilha mútua de experiências espirituais, confirmação na fé, exercício da autoridade do marido e da submissão da esposa corretamente entendidos na perspectiva bíblica e tradicional, e sentirem-se acolhidos uns pelos outros e por Deus em torno do qual nos reunimos. É uma forma de fazer nosso lar ser centrado em Cristo, viver as bênçãos de ser uma família da Aliança, e abençoar as vidas de todos os que vivem em nossa casa.

Rafael Vitola Brodbeck

Católico, casado e pai de quatro filhos. Delegado de Polícia em Piratini, Rio Grande do Sul, conferencista e escritor de vários livros jurídicos e teológicos. Gradou-se em Direito pela Universidade Católica de Pelotas em 2001, tendo concluído o curso superior de formação na Academia de Polícia Civil do RS em 2008. Diretor do Salvem a Liturgia. Membro do Movimento Regnum Christi, e articulista em vários veículos de imprensa no Brasil. Siga seu Instagram. Fale com ele por email.

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