"O lar cristão é o lugar onde os filhos recebem o primeiro anúncio da fé. É por isso que a casa de família se chama, com razão, «Igreja doméstica», comunidade de graça e de oração, escola de virtudes humanas e de caridade cristã."(Catecismo da Igreja Católica, 1666)

sexta-feira, 17 de março de 2017

Happy Saint Patrick's Day!

Hoje, 17 de março, é o dia de São Patrício. No calendário romano, é uma memória (o menor grau de uma festividade pelas regras modernas) desse grande Bispo cognominado Apóstolo da Irlanda.

 

Não há grande devoção ao santo no Brasil e poucas igrejas são a ele consagradas. Todavia, com a globalização e importação de costumes de outros países tornou-se comum, sobretudo por causa de escolas de ensino do idioma inglês e dos vários pubs de inspiração irlandesa ou nova-iorquina, celebrar o chamado Saint Patrick's Day. Muitos, entretanto, tomam a data para celebrar apenas seus aspectos exteriores: tomar cerveja irlandesa, ir a um pub, comer um cozido de cordeiro, vestir verde...

Saint Patrick's Day só com cerveja irlandesa e roupa verde é pura desculpa pra putaria e no máximo ter uma visão supersticiosa da coisa. Vista-se de verde, tome litros de cerveja irlandesa, mas também recorra à intercessão do santo, honre-o em sua oração e IMITE seu exemplo de fé CATÓLICA. Preferencialmente, como o santo era devotíssimo da Virgem Maria, reze o terço, e como era sacerdote, aliás, Bispo, vá ao Santo Sacrifício da Missa. 

As pessoas vão no irish pub em St. Patrick só para relacionar-se sem compromisso? Mulheres em roupas verdes mínimas só para entornar Guinness? Não adianta rezar a Couraça de São Patrício, lembrar vagamente que a data é de um santo. A festa é LITÚRGICA. É uma data do calendário CATÓLICO. Se na cultura popular ela também é festejada (e pode ser, não há mal algum, até porque isso é prova de que a fé informa todo o nosso viver, como as festas juninas no Brasil), que não se a celebre sem coerência com a fé.

Talvez seja necessário, para combater a mundanização da data divulgar a verdadeira devoção ao santo, o que não impede de vestir verde, comer cordeiro e beber cerveja irlandesa nem de ir a um pub. Beba cerveja stout, coma ensopado de cordeiro, vista-se de cinquenta tons de verde, ria, vá ao pub, namore, mas SANTIFIQUE-SE também!

Comecemos conhecendo quem foi São Patrício.

Patrício nasceu em 387, em Banwen, aldeia localizada no condado de West Glamorgan, na Principal Area de Neath Port Talbot, no sul do País de Gales, portanto parte da província romana da Britânia. Era filho de um diácono e neto de um padre, mas não praticava a fé com devoção. Foi apenas durante seu cativeiro de seis anos, no qual foi escravo após ser capturado por piratas irlandeses quando tinha 16 anos, que ele realmente buscou ao Senhor. Conseguiu fugir da Irlanda e de seus captores, e entrou para o mosteiro de Ésir, na Gália (atual França), onde militou como monge sob orientação do bispo São Germano. Foi sagrado Bispo em 432 e pediu para ser enviado à Irlanda como missionário, para pregar o Evangelho àqueles que o escravizaram. O Papa Celestino I autorizou a missão, continuando a obra do falecido Bispo Paládio

Sua pregação na Irlanda converteu centenas de pessoas, muitas delas se tornaram monges. Fundou mosteiros, organizou a Igreja irlandesa em redor das abadias, fez o povo reconhecer a Cristo como o Salvador, e usou de muitos métodos simples para transmitir a fé. Para explicar como a Santíssima Trindade era três e um ao mesmo tempo, por exemplo, utilizava uma planta muito característica da Irlanda, o trevo, que tem três folhas mas é um só. Foi incentivador do sacramento da confissão de forma auricular e particular, tal como conhecemos hoje.

Juntamente com Santa Brígida de Kildare e São Columba, é considerado o padroeiro da Irlanda. E por seu trabalho missionário que converteu o pagão povo irlandês, que era celta como ele (os galeses e bretões eram celtas também), foi apelidado de Apóstolo da Irlanda.
Em quase três décadas, o bispo Patrício converteu praticamente todo o país. Não contava com apoio político e muito menos usou de violência contra os pagãos. Com isso, não houve repressão também contra os cristãos. O próprio rei Leogário deu o exemplo maior, possibilitando a conversão de toda sua corte. O trabalho desse fantástico e singelo bispo foi tão eficiente que o catolicismo se enraizou na Irlanda, vendo nos anos seguintes florescer um grande número de Santos e evangelizadores missionários. O método de Patrício para conseguir tanta conversão foi a fundação de incontáveis mosteiros. Esse método foi imitado pela Igreja também na Inglaterra e na evangelização dos alemães do norte da Europa. Promovendo por toda parte a construção e povoação de mosteiros, o bispo Patrício fez da Ilha um centro de irradiação de fé e cultura. Dali partiram centenas de monges missionários que peregrinaram por terras estrangeiras levando o Evangelho. Temos, como exemplo, a atuação dos célebres apóstolos Columbano, Galo, Willibrordo, Tarásio, Donato e tantos outros. A obra do bispo Patrício interferiu tanto na cultura dos irlandeses, que as lendas heróicas desse povo falam sempre de monges simples com suas aventuras, prodígios e graças, enquanto outras nações têm como protagonistas seus reis e suas façanhas bélicas. Patrício morreu no dia 17 de março de 461, na cidade de Down, atualmente Downpatrick. (fonte: Dom Total)

As orações a São Patrício na tradição romana e na bizantina são belíssimas.

TROPÁRIOS, KONDÁKIONS E HINO (rito bizantino)

(MODO 3)

Santo bispo Patrício,
Fiel pastor do rebanho de Cristo,
Tu iluminaste a Irlanda com o fulgor da Boa Nova
E o poder da Trindade!
Agora que estás na presença do Salvador,
Rogai para que ele nos guarde em fé e amor!
 
(MODO 3)

Ó santo bispo Patrício,
taumaturgo, igual aos Apóstolos
e evangelizador do povo irlandês,
Rogai a nosso Deus misericordioso
pela remissão de nossos pecados.
(MODO 4)

Glorioso sejas Tu, ó Cristo nosso Deus
Que enviaste nosso pai Patrício
Como evangelizador da Irlanda e luminária na Terra
E através dele, guiaste muitos para a fé verdadeira.
Glória a Ti, nosso Deus misericordioso, glória a ti.

KONDAKION (MODO 4)

Da escravidão tu escapaste para a liberdade à serviço de Cristo:
Ele te enviou para libertar a Irlanda das amarras do demônio,
E plantar a Palavra do Evangelho no coração dos pagãos.
Em tuas jornadas e sofrimentos, foste como o Apóstolo Paulo!
Recebendo a recompensa celestial por teu labor,
Rogai sempre pelo rebanho que tu colheste na terra,
Santo bispo Patrício!

KONDAKION (MODO GRAVE)

Que Cristo esteja nos corações de todos que pensam em ti,
Cristo nos lábios de todos que oram a ti,
Cristo em todos os olhos que vêem ti,
Cristo em todos os ouvidos que ouvem tuas palavras,
Ó nosso santo pai Patrício.

HINO (MODO 2)

Enquanto viveste na terra, ó bendito pai Patrício,
tu te puseste sob o nome da Santíssima Trindade,
a Indivisível Trindade que criou o universo.
Agora que estás diante do trono celeste,
roga a Cristo Nosso Deus pela salvação de nossas almas.

COLETA DA MISSA E DO OFÍCIO (rito romano)

Ó Deus, que na vossa providência, para anunciar o Evangelho aos povos da Irlanda, escolhestes o bispo São Patrício, concedei, por seus méritos e preces, que os cristãos anunciem a todos as maravilhas do vosso Reino. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

Também a Segunda Leitura do Ofício de Leituras da Liturgia das Horas é belíssima e tirada de um escrito seu.

Da Confissão de São Patrício, bispo
(Cap. 14-16: PL 53, 808-809) (Sec. V)

Por mim muitos povos renasceram para Cristo

A toda a hora darei graças ao meu Deus, que me conservou fiel no dia da provação; por isso confiadamente ofereço hoje o sacrifício da minha vida, como hóstia viva, a Cristo meu Senhor, que me salvou de todas as minhas angústias, e Lhe pergunto: Quem sou eu, Senhor, ou qual é a minha vocação, para me terdes concedido tantas graças do Céu? Por vossa graça, posso hoje constantemente exultar e glorificar o vosso nome entre os gentios, onde quer que me encontre, na prosperidade como nas tribulações; suceda o que suceder, de bom ou de mau, tudo aceitarei com igual ânimo e sempre darei graças a Deus, que me ensinou a confiar n’Ele sem limites, e que sempre me há-de atender. Por vossa graça, nestes últimos dias, apesar da minha ignorância, pude encaminhar-me para esta obra tão maravilhosa e agradável a Deus: imitar aqueles de quem já o Senhor predissera que haviam de anunciar o seu evangelho, em testemunho a todos os povos.

Donde me veio esta sabedoria, que não estava em mim, que nem sabia contar o número dos dias, nem saborear a bondade de Deus? Donde me veio depois o dom tão grande e tão salutar, não só de conhecer e amar a Deus, mas de deixar a pátria e a família e de vir até aos povos da Irlanda para pregar o evangelho, receber os ultrajes dos incrédulos, ser desprezado como estrangeiro e suportar inumeráveis perseguições até ser encarcerado, e sacrificar a minha condição de homem livre pelo bem dos outros?

E se for achado digno de tal honra, estou pronto também, sem hesitar e de bom grado, a dar a minha vida pelo seu nome e a gastá-la por Ele até à morte, se o Senhor mo conceder. Porque é grande a minha dívida para com Deus que me concedeu esta tão grande graça: por mim, muitos povos renasceram para Deus e em seguida foram conduzidos à perfeição; e em toda a parte muitos clérigos foram ordenados para servirem este povo recém-chegado à fé, que o Senhor tomou do extremo da terra, como no passado prometeu pelos Profetas: A Vós virão as nações desde as extremidades da terra e dirão: Os nossos pais somente herdaram a mentira, vaidade que não serve para nada. E ainda: Fiz de ti a luz das nações, para que leves a minha salvação até aos confins da terra.

É aqui que eu quero esperar a realização da sua promessa que nunca engana, como está garantido no Evangelho: Virão do Oriente e do Ocidente, e sentar-se-ão à mesa com Abraão e Isaac e Jacob. Assim acreditamos que do mundo inteiro hão-de vir os crentes.
Como viver, então, o dia de São Patrício em família de um modo cristão e celebrá-lo no lar? Procurando ir à Missa em família, rezando o Ofício Divino, e mantendo algumas das tradições irlandesas.


Minha esposa, Aline, é descendente de irlandeses e, portanto, também nossos filhos. Temos essa cultura irish em nossa família, portanto. Aqui celebramos o santo. Nossa primeira paróquia depois de casados foi justamente dedicada a São Patrício, no Itaqui, fronteira oeste do RS, divisa com a Argentina, onde servi como delegado de Polícia em minha primeira lotação e onde nasceu nossa filha primogênita, a Maria Antônia (no hospital também chamado de São Patrício).

Aqui, geralmente, comemos algum cozido de cordeiro - coisa que não podemos fazer hoje porque é sexta-feira (no Itaqui, mesmo que fosse sexta, seria possível, pois como ele é o titular da paróquia lá não é memória, mas solenidade; o mesmo em Nova York e na Irlanda, por exemplo). Também tomamos uma cerveja stout tipicamente irlandesa, e nos lembramos do santo vestindo verde.

Mais sobre São Patrício aqui no blog.

Enfim, rezamos juntos a Couraça de São Patrício, uma oração de exorcismo muito poderosa que alcança de Deus muitos graças:

Cristo comigo,
Cristo em minha frente,
Cristo atrás de mim,
Cristo em mim,
Cristo abaixo de mim,
Cristo sobre mim,
Cristo à minha direita,
Cristo à minha esquerda,
Cristo quando me deito,
Cristo quando me sento,
Cristo quando me levanto,
Cristo no coração de cada um que pensa em mim,
Cristo na boca de cada um que fala de mim,
Cristo em todo olho que me vê,
Cristo em todo ouvido que me ouve.

Amém!